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Hélio Liborio

Comitê Baiano de Educação Integral Integrada Celebra 15 Anos com Imersão Teórica e Política na UFBA

No dia 17 de abril, a Faculdade de Educação da Universidade Federal da Bahia (UFBA) sediou um encontro memorável que transcendeu a celebração protocolar. O Comitê Baiano de Educação Integral Integrada, ao completar 15 anos de trajetória, reuniu intelectuais e militantes em uma jornada que se transformou em uma verdadeira "enciclopédia viva" sobre o direito à educação plena e inclusiva no estado.

Abertura e o Marco das Novas Diretrizes

A abertura do encontro foi conduzida pela Dra. Cláudia Cristina Pinto, articuladora central do comitê, que trouxe um esclarecimento fundamental sobre o momento atual das políticas públicas. Cláudia detalhou o processo de construção das Diretrizes Nacionais da Educação em Tempo Integral, publicadas em 2024, ressaltando que, embora o documento seja nacional, a tarefa dos comitês é local.

Ela enfatizou a necessidade de as secretarias municipais institucionalizarem suas próprias normas, aproveitando o prazo prorrogado até 1º de julho de 2026. Para a Dra. Cláudia, este não é um “documento de gaveta”, mas uma construção coletiva que deve guiar a busca por recursos e a estruturação das redes de ensino.

A Conjuntura Global e os Interesses de Guerra

Em seguida, a Professora Celi Taffarel elevou o debate ao situar a educação integral dentro da complexa conjuntura política mundial. Taffarel alertou que o fortalecimento da escola pública enfrenta resistências de uma ordem mundial que lucra com a exclusão. Segundo a professora, as diretrizes internacionais e as políticas de governo são atravessadas por interesses de guerra, exigindo que o comitê e a sociedade civil permaneçam vigilantes contra qualquer tentativa de paralisar o processo de democratização e emancipação social através do ensino.

A Essência da Educação Integral Integrada

Dando continuidade às reflexões, a Dra. Jaqueline Moll, pioneira no tema no Brasil, trouxe uma fala voltada à desmistificação do conceito. Moll reiterou que a Educação Integral Integrada não pode ser reduzida a “prender” crianças e adolescentes na escola por mais tempo com o objetivo de reforçar apenas disciplinas tradicionais.

Para Jaqueline, a essência dessa política é o desenvolvimento pleno do ser humano. O tempo ampliado deve ser um espaço de vida, alegria e ciência, superando a lógica da “escola-depósito” e garantindo que o tempo escolar faça sentido para a formação do sujeito em sua totalidade.

Justiça Curricular e o Direito à Diferença

A Dra. Taís Costa aprofundou a análise pedagógica ao abordar a Justiça Curricular. Sua intervenção foi um alerta contra as “primícias que buscam aprisionar o organismo da estrutura escolar”. Taís defendeu que um currículo justo é aquele que respeita a diversidade e atende aos interesses dos menos favorecidos, impedindo que a ampliação do tempo se torne apenas uma extensão da opressão burocrática ou de modelos excludentes.

Reparação Afrodescendente no Chão da Escola

Encerrando o ciclo de reflexões temáticas, a Dra. Joseane trouxe para o centro da sala de aula o imperativo da reparação afrodescendente. Em sua fala, demarcou que a educação integral só será plena se for capaz de realizar justiça histórica.

Joseane defendeu que o espaço escolar deve ser um território de afirmação, onde as contribuições civilizatórias africanas e afro-brasileiras não sejam apenas temas esporádicos, mas a base para uma educação que forme cidadãos críticos e orgulhosos de sua ancestralidade, combatendo o racismo estrutural a partir da prática pedagógica cotidiana.

Conclusão: Uma Escola Viva para o Futuro da Bahia

O encontro encerrou-se com uma visão inspiradora sobre o papel do comitê na transformação da escola. Entre as orientações práticas, destacou-se o modelo de 36 horas semanais (4 dias de 8 horas e 1 dia de 4 horas para articulação docente) como a alternativa mais eficaz para garantir qualidade sem exaurir estudantes e professores.

Ao completar 15 anos, o Comitê Baiano de Educação Integral Integrada reafirma seu compromisso com uma escola que seja democrática, alegre e capaz de superar os limites do modelo tradicional. Como destacado no fechamento, a tarefa é árdua, mas a força da construção coletiva é o que garante que a educação continue sendo o principal alimento para a justiça social e a demarcação existencial das crianças, jovens e idosos da Bahia.

Síntese da Jornada:

  • Dra. Cláudia Cristina: Abertura e diretrizes normativas.
  • Dra. Celi Taffarel: Conjuntura política e resistência global.
  • Dra. Jaqueline Moll: Conceituação da Educação Integral Integrada.
  • Dra. Taís Costa: Justiça Curricular contra o engessamento da escola.
  • Dra. Joseane: Reparação afrodescendente em sala de aula.