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Hélio Liborio

O Senadinho de Jenser e a Reinvenção da Ágora Política

O primeiro ano do Senadinho de Jenser celebra a emancipação de Alagoinhas com uma demonstração pública de civilidade, unindo espectros políticos em torno do diálogo e do respeito mútuo.

Em um momento em que a política nacional é frequentemente reduzida a um embate estéril de narrativas e ao isolamento em trincheiras ideológicas, o município de Alagoinhas testemunhou, no dia 2 de julho, uma lufada de ar fresco. A celebração dos 173 anos de emancipação política do município serviu de cenário para o primeiro aniversário do “Senadinho de Jenser”, um espaço que, longe de ser apenas um ponto de encontro, transformou-se em um laboratório de convivência democrática. Ali, sob a égide do diálogo franco, figuras de posições ideológicas antagônicas, gestores públicos, representantes do legislativo e cidadãos comuns partilharam o mesmo espaço, demonstrando que a divergência de ideias não precisa ser sinônimo de hostilidade.

A Geometria do Convívio

A festa de aniversário, realizada no Bar de Osvaldo, não se resumiu aos aspectos festivos da data cívica baiana. O evento funcionou como uma radiografia de uma política possível, onde a disposição dos lugares e a partilha do alimento criaram um campo de nivelamento hierárquico. Quando prefeito, secretários, vereadores como Xandinho e Jaldice, e diversos outros atores sociais se sentaram à mesma mesa, a hierarquia dos cargos deu lugar à horizontalidade do cidadão. Esse gesto, embora pareça simples no cotidiano, carrega um peso simbólico imenso em tempos de radicalismos exacerbados.

O ambiente construído pelo presidente Jenser e pelo secretário-geral, Dr. Antonio Barreto, atua como uma barreira física e psicológica contra a espetacularização. Ao promoverem encontros semanais às quartas-feiras, eles estabeleceram uma rotina que obriga os participantes a saírem das suas bolhas digitais para o enfrentamento presencial das ideias. O sucesso da iniciativa não reside na ausência de conflito, mas na forma como o conflito é gerido: a partir do olhar do outro, da empatia e da humanização que o contato direto proporciona.

O churrasco, o amendoim e o doce de leite não foram apenas elementos de uma confraternização, mas os “veículos” de uma diplomacia local. Ao eliminar as distinções de estrados ou púlpitos, o Senadinho de Jenser tornou-se o que os antigos filósofos chamavam de Ágora. Ali, a direita, a esquerda, o centro e até os céticos da política convivem, provando que o convívio, quando pautado pela civilidade, é capaz de dissolver as arestas que a distância digital torna tão cortantes.

A Política como Exercício de Alteridade

A lição que emana do Senadinho de Jenser é uma interpelação direta aos poderes centrais da República. Enquanto Brasília e muitas capitais sofrem com a paralisia do “nós contra eles”, Alagoinhas apresenta um modelo de resistência que não utiliza a agressividade, mas a insistência no debate. O parlamentar, quando se retira do ambiente de proteção da câmara e entra no ambiente de circulação comum, é submetido ao crivo da realidade — ele precisa ouvir o cidadão e, mais importante, precisa ouvir o colega com quem discorda.

Este modelo demonstra que a polarização radical é um artifício que serve à manutenção de certos grupos, mas que não sustenta a vida de uma cidade. O que se observa no Senadinho não é a omissão política, mas a sua qualificação. É a percepção de que a política partidária pode ser um meio para o fim comum, e não um fim em si mesma. Ao desarmar os espíritos, o espaço permite que as energias sejam direcionadas para o que realmente importa: a gestão da coisa pública e o bem-estar do coletivo.

É imperativo observar como o convívio com o diferente, nesta escala local, é transformador. Quando o vereador de uma corrente conversa com o empresário ou com o servidor público de outra, ocorre um fenômeno de humanização. O “adversário” deixa de ser uma categoria abstrata de inimigo para se tornar alguém com quem se partilha o mesmo tempo e o mesmo espaço. Essa é a base sobre a qual se constrói uma democracia que resiste aos abalos das redes sociais e à desinformação sistêmica.

O Fomento à Cidadania Plural

A presença de famílias, mulheres e crianças no ambiente político é o atestado de maturidade do Senadinho. Quando a política sai do porão da conspiração e vai para a mesa da celebração, ela ganha a transparência que a democracia exige. O Senadinho de Jenser não está tentando esconder as divergências; está, pelo contrário, dando a elas um palco seguro, onde a palavra é a única arma permitida e o respeito é o único requisito para entrada.

Essa estrutura de debate semanal, às quartas-feiras, configura um “treinamento” cívico. Quem frequenta o espaço aprende a dosar a própria voz e a refinar o próprio argumento, pois ali não se pode gritar; é preciso argumentar. A presença de tantos atores distintos confirma que, quando o convite para o diálogo é feito com sinceridade e sem pretensões de dominação, a adesão é natural. O povo, muitas vezes cansado dos palanques que isolam, busca espaços onde possa, de fato, participar.

Parabenizar os edis e as lideranças que compõem este espaço é um ato de reconhecimento ao esforço de manutenção de um patrimônio imaterial da cidade. O Senadinho é, hoje, uma das maiores demonstrações de que o Brasil pode ser diferente se as suas células locais decidirem ser. É um convite para que outras cidades olhem para Alagoinhas e perguntem: estamos sendo cidadãos ou apenas peões em um jogo cujo tabuleiro desconhecemos?