Picture of Hélio Liborio
Hélio Liborio

A Força da Ancestralidade em Pauta: Delma Pereira e o Lançamento de “Quilombando com Misuzulu” na Bienal 2026

A escritora feirense Delma Pereira anuncia o lançamento de sua nova obra infantojuvenil, "Quilombando com Misuzulu", que ocorrerá na Bienal do Livro Bahia 2026 com foco na preservação da memória quilombola.

A literatura produzida no interior da Bahia reafirma seu vigor e sua capacidade de pautar o cenário nacional com o anúncio da mais nova obra da escritora Delma Pereira. Intitulada “Quilombando com Misuzulu”, a obra não é apenas um exercício de narrativa ficcional, mas um documento estético e cultural que será apresentado ao público na Bienal do Livro Bahia 2026. O lançamento, sob o selo da Orama Editora, promete ser um dos marcos do Pavilhão A no Centro de Convenções de Salvador, consolidando a trajetória de uma autora que tem se dedicado a dar voz às vivências da comunidade de Feira de Santana e das raízes afro-brasileiras.

O Protagonista e a Descoberta do Mundo Quilombola

A narrativa de Delma Pereira introduz o leitor ao universo de Misuzulu, uma criança cujo olhar curioso serve de guia por entre as tradições e os silêncios eloquentes de uma comunidade quilombola. Através de seus olhos, o leitor é transportado para um cenário onde o aprendizado não ocorre apenas de forma didática, mas por meio da observação da natureza e da escuta atenta aos relatos dos mais velhos. É neste intercâmbio geracional que a obra fundamenta seu pilar central: a transmissão do saber como ferramenta de sobrevivência histórica.

Misuzulu representa a continuidade e o frescor da descoberta necessária para que a cultura não se torne um objeto estático em museus, mas uma prática viva no cotidiano. Ao caminhar pelos caminhos do quilombo, o personagem descobre que cada árvore, cada benzedura e cada conto popular carrega o peso de séculos de resistência. A autora utiliza uma linguagem que, embora acessível, não se furta de uma profundidade poética que eleva o cotidiano quilombola ao status de épico formativo.

A jornada de Misuzulu é, em última instância, um convite à alteridade e à valorização do “nós” em detrimento do “eu” isolado. A criança percebe que sua identidade está intrinsecamente ligada à força de um povo que, apesar das adversidades históricas, manteve seus símbolos e crenças inabalados. O texto constrói essa percepção de forma gradual, permitindo que tanto o público infantil quanto o adulto se sintam partícipes dessa epifania cultural sobre a importância de pertencer a um lugar com história.

Estética e Identidade Visual: A Ilustração de Mila Paixão

A recepção de uma obra literária no século XXI depende, fundamentalmente, da harmonia entre o texto e a imagem, e neste ponto “Quilombando com Misuzulu” apresenta um diferencial significativo. As ilustrações assinadas por Mila Paixão foram concebidas para criar uma estética que não apenas acompanha a leitura, mas que narra visualmente o que as palavras sugerem. O uso de cores, texturas e formas busca traduzir a vivacidade do ambiente quilombola, tornando o livro um objeto artístico de desejo para colecionadores e amantes da bibliofilia.

Mila Paixão utiliza sua sensibilidade visual para dar rosto e alma aos personagens e cenários descritos por Delma Pereira. A colaboração entre escritora e ilustradora resulta em uma obra onde a imagem atua como um portal, facilitando a imersão do leitor em um contexto que, para muitos centros urbanos, ainda é visto de forma estereotipada ou distante. A estética convidativa mencionada na notícia inicial é o resultado de um estudo cuidadoso sobre representatividade e a beleza das raízes afro-brasileiras.

O impacto visual das ilustrações no Pavilhão A da Bienal do Livro será um dos grandes atrativos da Orama Editora. Espera-se que a simbiose entre o traço de Mila e a escrita de Delma atraia um público diversificado, desde educadores em busca de material paradidático de qualidade até jovens leitores que anseiam por ver suas próprias origens retratadas com dignidade e exuberância. A arte visual aqui não é mera decoração; é parte integrante da tese de resistência que o livro propõe.

O Impacto da Obra na Literatura de Feira de Santana

A trajetória de Delma Pereira é um exemplo da descentralização necessária da produção literária brasileira, colocando Feira de Santana no mapa das grandes feiras literárias. Após o sucesso de sua antologia, a transição para uma obra solo voltada para a temática quilombola demonstra um amadurecimento autoral e uma responsabilidade social latente. “Quilombando com Misuzulu” surge como uma resposta à necessidade de conteúdos que abordem a ancestralidade sem cair em simplismos, respeitando a complexidade das comunidades rurais e periféricas.

A presença na Bienal do Livro Bahia 2026 representa um selo de reconhecimento para a literatura produzida no interior do estado. Estar no stand A74 ao lado de grandes nomes nacionais é uma afirmação de que a voz quilombola possui um valor universal e uma força comercial que o mercado editorial já não pode ignorar. Delma Pereira assume, assim, o papel de embaixadora de uma cultura que muitas vezes é silenciada, trazendo para o centro das convenções a periferia e o campo de forma altiva.

Além do aspecto literário, a obra fomenta uma discussão necessária sobre o papel das editoras, como a Orama, no fomento de vozes regionais. O lançamento serve como combustível para outros escritores de Feira de Santana, mostrando que a circulação em grandes eventos é possível através de um trabalho profissional e de uma narrativa que toque em pontos essenciais da formação humana. A conquista celebrada pela notícia é, portanto, coletiva, beneficiando todo o ecossistema literário baiano.