A pergunta “quem manda na cidade” não é mais retórica, é uma constatação diária para milhões de brasileiros. O Estado, preso em burocracias e disputas políticas, abriu um vácuo de autoridade que foi prontamente preenchido pelo crime. Onde não há escola, saúde ou segurança, o tráfico oferece assistência, “justiça” e emprego. Essa substituição do Estado pela facção é a forma mais perversa de “úlcera” social, pois cria uma dependência que dificulta qualquer intervenção futura. O crime não apenas ocupa o espaço; ele se torna o próprio Estado nas comunidades onde a bandeira nacional é apenas um pano decorativo.
A coluna crítica aponta que estamos tentando tratar um câncer com analgésicos. Discutir apenas o armamento de guardas ou a construção de mais presídios é ignorar a raiz do problema: a economia do crime. Enquanto o narcotráfico for a empresa mais rentável em regiões pobres, a renovação de quadros faccionais será infinita. O confronto direto, embora necessário, é apenas uma parte da solução. Sem um projeto que ofereça dignidade e alternativas reais à juventude, continuaremos enxugando gelo enquanto a hemorragia social drena as esperanças de uma nação que já não sabe a quem recorrer.
O momento exige coragem para admitir a falência do modelo atual. Não se trata de escolher entre o Estado autoritário ou o crime, mas de restaurar o Estado de Direito. A segurança pública deve ser um projeto de nação, imune a calendários eleitorais e vaidades partidárias. Se não agirmos agora com as ferramentas que ainda temos — inteligência, integração e investimento social — a úlcera se tornará incurável, e o Brasil passará de um país com problemas de segurança a um território dominado pelo crime organizado, onde o cidadão comum é apenas um personagem secundário em uma tragédia sem fim.
O futuro do Brasil depende da capacidade de suas instituições de retomar o controle não apenas do território, mas da própria narrativa de ordem e justiça. A segurança não se faz apenas com balas, mas com a presença constante da lei em todos os cantos do país. Ao final desta jornada, a resposta à pergunta sobre quem manda na cidade definirá se o Brasil continuará a ser uma democracia ou se sucumbirá definitivamente ao regime do crime. É hora de fechar a ferida antes que o corpo social não suporte mais a infecção.
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