
O Teatro da Incompetência Uma reflexão sobre a decadência moral da gestão pública que assiste, de camarote, ao naufrágio da infraestrutura urbana a cada nova estação chuvosa.
Alagoinhas assiste, estarrecida, a mais um ato da trágica comédia dirigida por uma elite política que há 25 anos ensaia soluções e entrega inundações. A metáfora de um aglomerado de “trapalhões” sem talento é, embora dura, uma representação fiel de uma gestão que perdeu o compasso da realidade social. O que vemos hoje não é o resultado de uma fúria incontrolável da natureza, mas o produto final de um quarto de século de desídia administrativa, onde o povo foi escalado para o papel de plateia sofredora em um espetáculo de incompetência que parece não ter fim.
O continuísmo que caracteriza as últimas décadas em Alagoinhas criou uma crosta de inércia que impede qualquer avanço técnico real nas galerias da cidade. O poder, concentrado em grupos que se revezam para manter o status quo, transformou a infraestrutura urbana em uma moeda de troca de baixíssimo valor. Enquanto famílias perdem seus colchões, fogões e dignidade na Silva Jardim ou na Rua do Catu, os gestores dedicam-se a polir discursos que culpam a intensidade das nuvens, ignorando que o verdadeiro problema reside na obstrução dos bueiros e da alma administrativa da prefeitura.
Não há como falar em progresso ou modernidade em uma cidade que sucumbe diante de um “gargalo” que todos conhecem, mas ninguém tem a coragem política de desobstruir. A Galeria do Rio tornou-se o símbolo máximo dessa falência: um ponto de estrangulamento que reflete a própria mentalidade de quem governa. Alagoinhas vive uma “bola de neve” de problemas acumulados que, se não for detida por uma intervenção ética e técnica, acabará por soterrar as poucas esperanças de desenvolvimento que ainda restam ao seu povo sofrido.
O Ciclo Vicioso da Sobrevivência Política
A política de paliativos adotada em Alagoinhas é a forma mais perversa de manutenção de poder. Ao investir em soluções que “maquiam” o problema sem resolvê-lo, a gestão garante que o tema continuará na pauta das próximas eleições, servindo como uma ferida aberta que é tratada com curativos de má qualidade. Esse ciclo vicioso sustenta um mercado de promessas onde a “tentativa de solução” vale mais do que o resultado prático. O cidadão, no entanto, cansou de ser cobaia de experimentos de engenharia eleitoreira que só funcionam em anos de pleito.
O desespero de quem perde tudo na chuva é o maior atestado de óbito de uma gestão pública que se orgulha de parcerias e apoios, mas que não consegue garantir que uma rua permaneça seca. O aglomerado de pessoas que orbita o poder municipal parece mais preocupado em garantir sua parcela de influência do que em descer às galerias para entender o fluxo da vida urbana. Alagoinhas tornou-se uma vitrine de ineficiência, onde a plateia agoniza enquanto o elenco governamental aplaude o próprio desempenho em reuniões de gabinete estéreis.
É preciso romper com a lógica da “bola de neve” administrativa antes que a cidade se torne definitivamente inviável. A sucessão de nomes que não trazem sucessão de ideias é o que mantém Alagoinhas submersa em um passado de atraso. O povo, cansado de dramas reais e promessas ficcionais, exige gestores que tenham o talento da execução e a honestidade do planejamento. Se 25 anos não foram suficientes para resolver o problema das enchentes, talvez o problema não esteja nas chuvas, mas na qualidade de quem segura o guarda-chuva do poder enquanto o povo se afoga.
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