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Hélio Liborio

Pitaco

A Estética do Abandono e o Teatro dos Oportunistas

Português

Em tempos de hiperconectividade, a política parece ter se mudado definitivamente para o campo da semiótica. Não importa mais se a repartição pública está com o teto desabando ou se o serviço de saúde carece do básico; o que importa é como o ângulo da foto no Instagram consegue esconder a rachadura na parede. Alagoinhas assiste, entre o desânimo e a perplexidade, ao uso desenfreado do patrimônio comum como se fosse cenário de estúdio para pré-candidatos. É a política da conveniência, onde o descaso de quatro anos tenta ser apagado por um filtro de “clareza” em uma postagem de trinta segundos.
O que se vê é uma inversão de valores gritante. A seriedade administrativa, que deveria ser a regra, é tratada como artigo de luxo, enquanto o palanque de promessas vazias é distribuído gratuitamente em cada esquina digital. Existe uma simbiose perversa entre o agente público que ignora o sucateamento e o eleitor que, por falta de informação ou por excesso de esperança, aplaude o gestor que promete consertar em meses o que ele mesmo ajudou a destruir em anos. É um teatro onde o cenário está caindo aos pedaços, mas os atores continuam sorrindo para a câmera, esperando que o flash cegue a plateia para a realidade dos fatos.
A gestão pública não pode ser um exercício de marketing pessoal. Quando os espaços públicos são frequentados por políticos apenas no ano eleitoral, fica evidente que o interesse não é no bem-estar do cidadão, mas na captura do seu voto. A rede social virou a vitrine desse desespero, um repositório de mentiras e omissões onde o “povo gosta” de ser enganado, ou talvez, apenas não tenha forças para exigir algo diferente. É preciso que a consciência crítica retome o seu lugar, para que as próximas fotos de Alagoinhas não sejam de promessas de projetos, mas de obras concluídas e serviços que funcionam independentemente da data no calendário.
O destino de uma cidade não pode ser definido por quem ri da falta de seriedade. A política séria exige suor, planejamento e coragem para admitir erros e enfrentar o sucateamento com trabalho, não com poses estudadas. Enquanto a fotografia for o principal registro da gestão, a cidade continuará sendo uma imagem estática de um progresso que nunca chega, aprisionada na legenda de uma foto que já nasceu velha.

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