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Hélio Liborio

Pitaco

O Triunfo do Pragmatismo sobre a Estética

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Sob uma ótica analítica desprovida de paixões, a vitória do Corinthians sobre o Flamengo na Supercopa 2026 deve ser celebrada como o triunfo do pragmatismo esportivo. No futebol contemporâneo, onde se discute exaustivamente a “beleza” do jogo propositivo, o Corinthians entregou uma aula de como vencer dentro de suas limitações e potências. Criticar o “bloqueio” alvinegro como algo negativo seria ignorar a complexidade necessária para anular um investimento de centenas de milhões de euros. O Corinthians não “estacionou o ônibus”; ele construiu uma muralha inteligente baseada em estudo e dedicação.
Filipe Luís, apesar de seu início promissor como treinador, encara aqui seu primeiro grande revés tático de impacto nacional. A lição extraída deste confronto é clara: ter as melhores peças não garante o xeque-mate se o tabuleiro for dominado pela estratégia adversária. O técnico rubro-negro terá de refletir sobre a capacidade de sua equipe em lidar com contextos de extrema adversidade defensiva. A dependência de um jogo bonito muitas vezes esbarra na crueza de um adversário que conhece os atalhos do campo e sabe valorizar cada posse de bola como se fosse a última.
O Corinthians, ao repetir o feito de 1991, resgata uma identidade que muitos julgavam perdida: a do time que não se intimida com o favoritismo alheio. O título da Supercopa serve como uma advertência para a temporada que se inicia. O futebol brasileiro ganha com este equilíbrio, mostrando que o poder financeiro do Flamengo não é garantia de hegemonia absoluta quando encontra do outro lado uma instituição com alma e organização. O bicampeonato é o prêmio para a eficiência, para o suor e para a coragem de ser cirúrgico quando a oportunidade se apresenta.
O Significado Institucional do Bicampeonato
A conquista transcende as quatro linhas do gramado e atinge as salas de diretoria e as arquibancadas lotadas. Para o Corinthians, este troféu valida um processo de reconstrução que priorizou a competitividade em detrimento de loucuras financeiras momentâneas. Vencer o principal rival interestadual do país em uma final nacional eleva a moral do grupo e consolida o trabalho de uma comissão técnica que entende a idiossincrasia do clube. O “DNA corintiano” de luta e superação foi personificado em cada desarme e em cada bola afastada da área de perigo.
O peso histórico de igualar 1991 coloca a atual geração em um patamar de respeito. Naquela época, o Corinthians de Neto vencia a mesma Supercopa, dando início a uma era de glórias que culminaria em títulos brasileiros e internacionais. O paralelo é inevitável e serve como combustível para a torcida acreditar que o clube está, novamente, trilhando o caminho do protagonismo. O título de 2026 não é um fim, mas um meio de afirmar que o equilíbrio de forças no futebol nacional permanece vivo, alimentado pela tradição de clubes que sabem o que significa vestir uma camisa de peso.
O legado desta partida será estudado por analistas de desempenho por meses. A incapacidade do Flamengo em furar o bloqueio corintiano aponta para uma necessidade de evolução no futebol brasileiro: a busca por soluções contra defesas em bloco baixo. Enquanto isso, o Corinthians desfruta da glória de ter sido o mais inteligente em campo. O bicampeonato da Supercopa é, acima de tudo, uma ode à estratégia e à resiliência de um time que, ao ser subestimado pela crítica que via o Flamengo como uma seleção imbatível, respondeu com a mais pura e eficiente forma de jogar futebol.

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